sábado, 8 de março de 2008

You're not Alone

Na Terra do Nunca

Terra do Nunca é uma ilha fictícia do livro Peter Pan do escritor J.M.Barrie. Nesta ilha as crianças não envelhecem. Entretanto, isto é visto como uma metáfora para a infância eterna, imortalidade e a fuga da realidade.
Como conta a história, Peter Pan guiou Wendy e os seus irmãos para a Terra do Nunca, “a segunda estrela à direita e então seguimos até ao amanhecer”. Alguns personagens deste romance são Peter Pan, os meninos perdidos, índios, piratas e sereias…

A nossa Terra do Nunca é um pouco diferente.
Para nós continua a ser como uma fuga da realidade, um mundo à parte, mas as nossas personagens são crianças reais, talvez um pouco perdidas num mundo mais longe da realidade que o nosso, e todos aqueles que diariamente lidam com elas, dando-lhe todo o apoio e carinho que precisam, a nossa história é um testemunho real, sem piratas, sem fadas e sem sereias…

Redifinição do Projecto

Devido a motivos alheios o nosso projecto inicial sofreu algumas alterações.
“Na Terra do Nunca" manter-se-á o nome, apesar de termos alterado a configuração do produto final, que será agora um livro, ao invés de uma reportagem.No nosso livro poderá ler-se a história de diversas pessoas que tentaram penetrar esta aparente insondável barreira que os autistas têm entre o mundo real e um algo que só eles vêm, ouvem ou sentem. Três dessas pessoas somos nós e queremos ser capazes de transmitir bem todas e cada uma das nossas experiências ao longo do tempo, desde Outubro de 2007 até Abril de 2008, de contacto com as crianças autistas.Teremos a colaboração de educador (as), pais, familiares ou voluntários como nós que poderão ter-se sentido atraídos, comovidos, por estas crianças tão especiais.
Tencionamos publicar alguns excertos no blog à medida que formos concebendo o livro.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Festa de Carnaval

Dia 1 de Fevereiro, realizou-se a festa de Carnaval da Instituição da Imaculada Conceição. Foi uma óptima oportunidade para estudar o comportamento das crianças autistas em comparação com outras crianças.
Quando lá chegámos as crianças estavam felicíssimas. Cada uma tinha a sua máscara de Carnaval e a primeira impressão que se tinha é que estavam a adorar a sensação de liberdade de não estarem o dia todo em salas de aulas. A euforia era tal que quando chegámos todas vieram ter connosco e já nem conseguíamos distinguir quem era quem.
Passado o primeiro impacto pudemos constatar que o entusiasmo não era partilhado por todos. A maior parte dos “nossos” autistas estava nos cantos, muito concentrados em si próprios e nos seus costumes carnavalescos, estabelecendo pouca, ou nenhuma, relação com os outros. Quando tentámos contactar com eles ignoram-nos, rejeitaram-nos e alguns deles mostraram-se tão apegados às brincadeiras de Carnaval, que não nos deixaram chegar perto delas. No entanto, pareceram-nos mais felizes que nunca e demonstravam-no com o seu comportamento mais efusivo do que o normal (davam pancadinhas ritmadas nas paredes e nas cadeiras, corriam e saltavam e alternavam repentinamente entre estados de apatia e de actividade).
Contudo nem todos tinham esta atitude. Alguns deles deixavam que nos aproximássemos deles e davam-nos atenção. Outros eram eles próprios que nos procuravam e se mostravam interessados em interagir connosco. Chegámos mesmo a conseguir que um deles, que aparentemente não tem a fala desenvolvida, respondesse a uma pergunta nossa.
Quando a festa acabou acalmaram e não mostraram resistência em voltar para as salas de aula.
Concluímos que as crianças autistas estão muito mais dispostas aos estímulos se não estiverem pressionadas a manifestar as suas aprendizagens e se estiverem felizes.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

As nossas visitas

Desde Outubro que estamos a trabalhar com o Instituto de Surdos-mudos da Imaculada Conceição e temos realizado diversas visitas, tanto no âmbito do nosso trabalho como por voluntariado.
Não é só a dimensão profissional que nos compete mas principalmente a faceta humana desde projecto que é aquela que mais procuraremos desenvolver e transmitir durante e no final. E realmente, podemos dizer que todo este tempo que temos passado com as crianças tem sido uma janela que nos permite ver outras realidades e comunicar com o outro lado de nós que tem consciência de não viver numa sociedade perfeita de igualdade.

No primeiro dia em que chegámos, estávamos pouco familiarizadas com o espaço e com as pessoas. A Irmã Ana Rosa e a educadora Didi mostraram-se sempre simpáticas e muito prestáveis em mostrar-nos as salas, as crianças e as actividades que elas desenvolviam bem como o seu historial familiar e de saúde.
De início, foi um pouco complicado lidar com uma situação em que as crianças – ao invés da maioria que corre para nós, fala, olha, comenta – simplesmente parecia não nos dar qualquer tipo de atenção. Olhavam-nos de lado, não falavam. Sentimo-nos desconfortáveis, como se a nossa presença não importasse para eles. Não reagiam ao nosso toque, às nossas palavras, não nos conheciam nem pareciam interessados em fazê-lo.


Com o avançar do tempo, começámos a adaptar-nos. Aprendemos os seus nomes e alguns traços da sua personalidade. Sentimo-nos progressivamente mais confiantes em ajudá-los nas suas tarefas e sentimos também que eles começam a conhecer-nos. Continuam a não nos olhar nos olhos e a sua mudez é profunda. No entanto, é perceptível que eles sabem que estamos ali e que estamos com eles. Deixou de nos fazer tanta confusão os seus gestos estereotipados, os seus gemidos ou ataques de fúria ou de preguiça sem razão aparente, coisas que ao princípio nos assustaram um pouco.

Hoje, sentamo-nos com eles e participamos nos seus jogos, fazemos-lhes festas ou falamos com eles e vemos que eles estão a entender o que se passa, que aquilo é para eles e que somos amigas, não estranhas.
Esta estreita relação é muito importante no nosso trabalho e queremos desenvolvê-la mais e mais.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Sintomas do Autismo


sábado, 12 de janeiro de 2008

Sala Snoezelen

Numa das nossas visitas ao Instituto da Imaculada Conceição tivemos a oportunidade de entrar na sala Snoezelen, uma sala projectada na Holanda, criada especialmente para acalmar as crianças, de forma a evitar ataques de epilepsia; funciona, por assim dizer, como técnica de relaxamento.

No início, aquela pequena assoalhada, escura e fria, não parecia ser mais do que uma sala banal, com quatro paredes, vários objectos espalhados, entre os quais encontrámos uma cama, um colchão, um espelho, duas colunas de água, uma bola de espelho, todas as janelas fechadas… não fazia qualquer sentido, focos de cores e luzes por toda a sala. Num canto podíamos ver uma muito menos se enquadrando nas perspectivas que tínhamos.

De repente, foram surgindo bola de cores reflectida na parede, noutro apareciam feixes de fibras ópticas que mudavam de cor a cada cinco segundos. As colunas de água começaram a formar bolhas e a irradiar cor, transformando totalmente uma sala que há segundos se mostrava aparentemente desinteressante.

Entraram duas crianças connosco, a Carolina e o Zé Maria, e aí percebemos que cada criança é uma criança, cada caso é um caso… por um lado vimos a Carolina a saltar para o colchão de água e a rir, pelo contrário o Zé entrou calmo e desconfiado. Ficámos com eles durante algum tempo, observámos reacções, vimo-los rir, brincar com espelho, adormecer…

E foi no meio daquele jogo de luzes e cores que nos perdemos completamente numa terra imaginária, uma realidade que nunca nos passou pela cabeça que pudesse existir naquele lugar.